Andou perdido no meio dos desenhos
1 Janeiro 2009
Fechou a porta com o pensamento levado nas palavras por lhe dizer, deixar aquele lugar, era para ele como uma despedida definitiva daqueles momentos fotográficos que o iam decompondo em pequenos bocados de histórias.
Era estranho. Como um cego que aprende a olhar, aprender a ver fora dos olhos dela,rasgava as retinas como o brusco acender de mais um dia.
Pensou dias e dias antes de partir,pensou dias e dias antes de abrir o próprio ver, mas até o pensar não era mais do que a voz daquela personagem encantada na sua cabeça. Pensar era viver mais uma vez. Pensar era sonhar com o perfume que restou confundido com o medo de não chegar a nada e na verdade já nem o nada cheirava a vida. Sem pressa de chegar a lado algum, deixou-se cair sobre o vidro ressoado da chuva que chorava lá fora enquanto as luzes se emaranhavam numa dança nostálgica aos seus olhos brilhantes de saudade. Os mesmos olhos que gritavam em silencio no balanço da apatia.
O caminho findou sem ser lembrado ofuscado pela mesma melodia, na mesma dor do sonho resfriado dos que sentem calados.
Seduzido pela chuva que o chamou com promessas mudas, ele, de sentidos abertos abraçou aquela rua de casas toscas onde era difícil ver o céu de fim da tarde... andou e andou. Sem nada acontecer, andou e andou ate não haver mais por onde andar. A chuva. Essa. Não hesitou em o beijar, sem perguntas ou compromissos ou historias de dia seguinte. A chuva. Essa. A chuva, a única, única mulher na sua vida, não partia por muito tempo e quando o sol em ciúme a roubava, havia a certeza de que iria sempre voltar.
Fossem todas assim... ou talvez só ela, a dele, tão única, tão dele... tão ela, diferente de todas as outras elas. Única como tudo que termina, diferente como todos os adeus. A única que o deixava quente de tanto frio naquele fim de tarde ou talvez fim de noite? O tempo já não fazia sentido nele, era apenas a soma fácil dos espaços que ela deixara em vazio naquele relógio apagado que sentia o peso dos dias de saudade.
Entrou no café do fundo da rua, sentou-se e perdeu-se nos pensamentos velhos onde ela era, é, rainha e deus, princesa e diabo,anjo e demónio. Paraíso infernal.
Fechou o bloco vazio e por fim desistiu com um até amanha ao prometer esquecer.

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